O Brasil vem registrando queda nas exportações para a Argentina em meio à crise econômica vivida pelo vizinho nos últimos meses. A retração nas vendas ao terceiro maior parceiro comercial brasileiro começou em maio e, de lá até julho, elas caíram 14,3% na comparação com igual período de um ano antes. Em agosto a exportação caiu 4,8% ante igual mês de 2017.

Uma decisão do governo argentino deve mexer ainda mais com os números, já que o presidente Mauricio Macri anunciou ontem – entre outras medidas – a aplicação de impostos aos exportadores para buscar equilíbrio fiscal e fazer frente à crise cambial e econômica. De acordo com o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic), entre os produtos afetados está o trigo – do qual o Brasil é um comprador relevante.

O secretário de Comércio Exterior do Mdic, Abrão Miguel Árabe Neto, foi questionado sobre o tema ontem, mas não soube precisar o impacto do anúncio para o fluxo de comércio entre os dois países. “Não acompanhei ainda o anúncio de quais foram os bens [a serem taxados], mas, em regra, são produtos que não estão na pauta bilateral entre Brasil e Argentina”, afirmou.

Segundo ele, o enfraquecimento das exportações ao país nos últimos meses é consequência dos problemas financeiros do país vizinho. “Tivemos uma desaceleração, com queda nos últimos quatro meses, e agora observaremos como a economia argentina vai reagir. Esperamos que superem esses desafios o mais rápido possível. Temos atuado muito em conjunto com o governo argentino com uma série de ações para fortalecer o comércio bilateral”, afirmou.

O desempenho das exportações aos argentinos nos últimos meses é apenas o início do reflexo da crise que levou à desvalorização do peso em relação ao dólar ainda no início de maio, segundo José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

No acumulado do ano, há ainda alta de 0,5% na venda aos argentinos, mas a intensificação da crise desde a semana passada deve também repercutir de forma mais forte nos embarques dos próximos meses ao país vizinho, diz ele.

Castro destaca que o superávit para o Brasil no comércio bilateral com os argentinos de janeiro a agosto ficou 18,9% abaixo do realizado em igual período de 2017. Parte disso, avalia, também se deve ao crescimento das importações brasileiras de bens argentinos, que subiram 17,4% na mesma comparação. “Essa alta, porém, já era esperada. Também já era esperada uma desaceleração nas exportações à Argentina, já que as vendas cresceram muito no ano passado e não se sustentariam neste ano”, afirma Castro. A magnitude da crise argentina, porém, intensificou o efeito sobre os embarques.

O quadro argentino deve contribuir ainda mais para a perda de fôlego das exportações de manufaturados brasileiros, diz Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Além da perda de competitividade em razão da forte desvalorização do peso argentino, o mercado vizinho deve ficar mais restrito, de acordo com ele. “É um fator adicional a um cenário internacional já complicado, com as tensões decorrentes de movimentos protecionistas.”

A Argentina, diz Cagnin, é importante comprador de manufaturados brasileiros, cujos embarques estão em desaceleração. Na comparação pela média móvel trimestral, segundo ele, a exportação total de manufaturados brasileiros no trimestre terminado em agosto subiu 11,4%. A alta, porém, se deve a plataformas de petróleo embarcadas neste ano. Sem as plataformas, o crescimento é bem menor, de 5,7%.

A comparação no acumulado do ano também mostra desaceleração parecida. De janeiro a agosto a exportação de manufaturados subiu 11,2%. Sem as plataformas de petróleo, a alta foi de 5,8%. “Esse desempenho sem plataformas está muito abaixo dos 10,4% de crescimento dos manufaturados no acumulado de janeiro a agosto de 2017 em relação a igual período do ano anterior”, diz Cagnin.

“Os dados mostram uma desaceleração bastante clara que reflete a perda de ritmo da indústria no decorrer do ano”, afirma.

A balança comercial brasileira registrou superávit de US$ 3,775 bilhões em agosto, divulgou ontem o Mdic. O valor representa um recuo de 32,5% na comparação com agosto do ano passado e é resultado de US$ 22,6 bilhões em exportações (aumento de 15,8% em relação a agosto do ano passado, considerando a média diária) e US$ 18,8 bilhões em importações (avanço de 35,3% pela média diária).

O secretário de Comércio Exterior do Mdic destacou que o valor exportado em agosto foi o segundo maior da história para o mês, perdendo somente para o registrado no ano de 2011 (US$ 26,1 bilhões). Já em relação à importação, o valor foi o quinto maior. Ele ressaltou ainda que foi o 21 º mês consecutivo de crescimento nas importações.

Segundo o secretário, os valores de importação do país continuarão crescendo mesmo com a desvalorização do real na comparação com o dólar. As empresas, disse ele, trabalham com contratos de longo prazo e, por isso, a variação cambial leva um tempo para atingir a compra de bens vindos do exterior.

“Em relação ao dólar, mais do que o nível exato, o que influencia com mais rapidez as compras externas é a oscilação. Temos contratos que em geral são de mais longo prazo. Eles recebem o choque das oscilações cambiais mas não respondem imediatamente a essas mudanças, que são relativamente recentes”, afirmou. “Então, na nossa avaliação, essas taxas de crescimento [nas importações] seguirão acontecendo ao longo do ano a despeito da taxa cambial”, afirmou.

Considerando o acumulado de janeiro a agosto, o superávit da balança comercial foi de US$ 37,8 bilhões. O número representa recuo de 21,4% na comparação com um ano antes. Nos oito meses, as exportações chegaram a US$ 159 bilhões (aumento de 8,3% pela média diária na comparação com o mesmo período de um ano atrás), e as importações, a US$ 121,2 bilhões (avanço de 23,1% pela média diária).

 

Fonte: Valor